As verdadeiras Super Drags - Frames

As verdadeiras Super Drags

Você já deve ter as visto em algum lugar. Afinal, dificilmente passam despercebidas. Seja com longos vestidos ou com trajes performáticos, essas figuras são um símbolo unânime da cultura LGBT. Chame as de performers, transformistas ou, simplesmente, de drags. Mas lembre-se: embaixo de toda a produção sempre existe um artista querendo passar uma mensagem.

A mensagem de Albert Roggenbuck surgiu em um lugar repleto de pedidos por respostas. Na igreja. Criado a partir de ideias cristãs, ele sempre soube que sua obrigação era desenvolver o amor ao próximo e lutar por um mundo melhor. Ainda que tivesse isso consigo, ele não pôde se proteger de atitudes alheias. Com xingamentos do tipo “bichinha”, ele chegou a ser agredido. Foi então que se mudou para São Paulo aos 17 anos.

Quando chegou na capital, foi acolhido por uma família com 14 filhos. Se matriculou no curso de Comunicação Social e começou a fazer teatro. Com 25 anos finalmente viveu a experiência de beijar um homem pela primeira vez. E ao participar da segunda Parada do Orgulho LGBT da cidade em 1998, enxergou a opressão que o grupo sofria. Como enxergar isso e não fazer nada? Ele precisava se posicionar na luta. E se posicionou. Após encontrar a expressividade nos palcos pôde saber como colocar suas ideias para fora. Por meio da Dindry Buck, personagem criado a partir do seu alter-ego.

Dindry se posicionou pela luta a diversidade. Ao participar de ações desse tipo abriu as portas para que uma nova etapa fosse criada. “Eu lembro que o Cássio Rodrigo, coordenador de Políticas para Diversidade Sexual, e o Franco Reinaldo, atual diretor do Museu da Diversidade Sexual, me chamaram depois de receberem um abaixo assinado pedindo o fechamento de duas boates que tinham no Largo do Arouche. A Freedom e a Planet G”.

A chegada do abaixo assinado na mãos de Cássio e Franco era uma consequência da forte movimentação de LGBTs na região da praça. Pichações em obras de arte, lixos pela rua e pessoas tendo comas alcoólicos eram constantes como o amanhecer e o pôr do sol. “As matinês eram o maior atrativo para os jovens e adolescentes LGBTs. Ambas as boates ofereciam entradas vips e, como muitos não conseguiam entrar, ficavam ali na praça mesmo”.

Era urgente a necessidade de conscientizar esse público. Mas como? Ao pensar em formas nasceu a proposta de algo lúdico e capaz de levar cidadania e respeito ao espaço público. “Nós quatro já interagíamos há um tempo. Nos montávamos iguais e íamos para os Gay Days que tinham no Playcenter e no Hopi Hari. Foi aí que decidimos que poderíamos oficializar o quarteto e o batizar de Esquadrão das Drags”. Logo Dindry Buck, Sissi Girl, Send Buck e, na época, Nina Ca$h não só eram drags, mas sim um time que levaria a sua mensagem de um jeito colorido, irreverente e divertido.  

Com a cartilha Juventude e Diversidade, as quatro foram para a praça. O desafio estava nas primeiras semanas, pois era ali que estaria a resistência. Muitos desses jovens vinham da periferia para o centro, porque era ali que estavam os espaços de interação LGBT. Ideias como “aqui tudo pode” eram frequentes. O motivo se encontrava na percepção que não haveria ninguém ali para os julgar. “Eles pensavam ‘Ixi, elas chegaram, vão colocar limites e vão tentar consertar alguma coisa’. Mas com o tempo eles mesmos começaram a contar os problemas e as situações familiares”.

Apesar do bom andamento do projeto, as cartilhas acabaram. Logo, decidiram ir com as próprias bagagens de conhecimento sobre o universo repleto de armadilhas. Lições sobre respeitar o espaço do outro e prevenção sexual eram principais. O Largo logo ficou pequeno, e as quatro migraram para o Ibirapuera. Lá, a ação se tornou mais intensa. “Eram mais de mil pessoas frequentando aquela marquise. Como tínhamos o apoio do MAM, a gente punha uma caixa de som e seguíamos o programa. Entravamos com música, fazíamos dinâmica, ensinávamos como colocar camisinha, falávamos de drogas lícitas e ilícitas. Tudo de uma forma despretensiosa mas que, com humor e irreverência, conseguia tocar eles.” Para elas, comentários como “eu falei da ação para a minha mãe e ela achou interessante” e “esse amigo veio por causa de vocês” eram quase cotidianos e ainda assim emocionantes.

Dindry Camisinha Arouche Drag Queen

No último ano, 2017, o Esquadrão teve uma surpresa. As quatro drag queens foram escolhidas para serem embaixadoras da AHF, instituição internacional de combate ao HIV. Com esse apoio, elas puderam desenvolver diferentes ações de prevenção e diagnóstico. Outra conquista foi a adaptação dessa história para o livro das escritoras Rosely Tardeli e Fernanda Teixeir. Com o apoio do Proac LGBT, centenas de cópias do livro foram distribuídas gratuitamente em casas de cultura e bibliotecas municipais de algumas cidades no entorno de São Paulo.

No dia 06 de novembro de 2017, o Esquadrão completou 6 anos. A cada conquista, ele mostra que o poder de mudança está além do salto ou maquiagem. Está nos ideais que uma pessoa carrega. Pelo olhar da Tata Amaral, os quatro amigos se tornaram documentário. Confira-o abaixo:

COMENTÁRIOS


POST RELACIONADOS