Cem mil vozes em uma passeata - Frames

Cem mil vozes em uma passeata

Logo nas primeiras horas da manhã as ruas da Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro, já eram tomadas por estudantes, artistas e políticos. Outros protestos como esse tinham sido violentamente reprimidos, mas dessa vez todas as indicações apontavam que algo marcaria aquele 26 de junho para sempre.

Desde 1967, o movimento estudantil se posicionava como figura principal na oposição ao regime militar, instalado no Brasil em 1964. As lutas do grupo também englobavam a reforma na política educacional adotada pelo governo, que tendia ao fim do ensino público e a futura privatização.

O auge do protesto se deu no final de março de 68. Estudantes protestavam contra o aumento do preço das refeições no restaurante universitário “Calabouço” quando militares invadiram lugar. Nesse dia, o secundarista Edson Luís de Lima Souto, de 18 anos, foi morto com um tiro à queima roupa pelo comandante da tropa da PM, aspirante Aloísio Raposo.

O fato acirrou os ânimos de pessoas pelo país. E, como consequência, manifestações foram organizadas no centro da cidade do Rio de Janeiro. Todas eram fortemente reprimidas e, a cada onda, geravam ainda mais revolta nos envolvidos. No dia 04 de abril, uma missa é organizada na Igreja da Candelária atraindo 600 pessoas. Mesmo proibida pelo governo militar, ela acontece. Em seu final, soldados a cavalo, um batalhão do Corpo de Fuzileiros Navais e vários agentes do DOPS esperavam estudantes, padres, repórteres e populares para mais um ataque em prol do silêncio.

Foto:  Evandro Teixeira

A fim de chamar a atenção da mídia, uma nova manifestação é organizada em frente ao Jornal do Brasil no dia 21 de junho. Com o ataque de militares, o conflito terminou com três mortos, dezenas de feridos e mais de mil prisões. Batizado de “Sexta-feira sangrenta”, esse dia gerou forte repercussão. A fim de acalmar os ânimos, o comando militar permitiu mais um protesto. Desta vez, com o seu aval.

A data já estava marcada. Dia 26 de junho de 1968. Mas de dez mil policiais se posicionavam nas ruas, prontos para entrar em ação caso a situação saísse do controle. Por volta das quatorze horas, a marcha começava com aproximadamente 50 mil pessoas presentes. Após uma hora, o número já dobrava para 100 mil, agrupando artistas, intelectuais, políticos e outros segmentos da sociedade civil brasileira.

Foto:  Evandro Teixeira

Uma enorme faixa marcava o começo da multidão. Com a frase “Abaixo a Ditadura. O Povo no poder” ela foi carregada por todo o percurso. Durante três horas todos caminharam expressando suas ideias, apenas parando em frente à igreja da Candelária para ouvir o discurso do líder estudantil Vladimir Palmeira, que lembrou a morte de Edson Luís e cobrou o fim da ditadura militar.

Foto:  Evandro Teixeira

Após o ato, o ditador Médici aceitou receber uma comissão de estudantes para ouvir os seus pedidos de mudança. Mas, após toda a exposição, ele rejeitou todos enfatizando a permanência do estado militarizado.

Os protestos continuaram. E somente em dezembro desse mesmo ano foi publicado o AI-5, que tirava as últimas máscaras e revelava toda a brutalidade do governo.

Foto:  Evandro Teixeira

Inspirado no episódio, o poeta a Carlos Drummond de Andrade compôs o poema “Diante das fotos de Evandro Teixeira”. Para encerrar essa retrospectiva, deixamos um trecho dele:

“Das lutas de rua no Rio

em 68, que nos resta

mais positivo, mais queimante

do que as fotos acusadoras,

tão vivas hoje como então,

a lembrar como a exorcizar?”

 

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