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Conheça a história dos cinemas de rua de São Paulo

Sem streamings de filmes, sem canais de TV a cabo e sem DVDs. Essa era a realidade de um público que encontrava nos cinemas de rua a sua fonte de lazer. Eram eles os responsáveis por trazer toda a magia de Hollywood para a cidade. Com salas espaçosas e confortáveis esbanjavam o glamour de algo pouco acessível na época.

Instalados em sua maior parte em prédios não-próprios, com a crise das salas de cinema na década de 80 (época que de fato a maior parte delas fechou as portas), estes não conseguiram arcar com os custos. Sem público, uns simplesmente fecharam. Outros, apelaram para os filmes pornográficos.

Conheça a história de cada um:

 

Cine Paissandu

As altas colunas e a pequena escadaria davam as boas-vindas para o público que chegava ao número 62 do Largo do Paissandu. Revestido em mármore, o Cine Paissandu, inaugurado oficialmente no dia 19 de dezembro de 1957, era um dos cinemas com maior capacidade de São Paulo. Ao todo, ele possuía 2.150 cadeiras.

A sua grandiosidade era vista logo no hall de entrada. Com 15 metros de extensão, o painel trabalhado em afresco contava a origem de danças típicas brasileiras; como “Bumba Meu Boi”, “Candomblé” e “Fandangos”. A sua sala de espera com 900 m² abrigava iluminação suave, ar condicionado, poltronas confortáveis e outro painel com 12 metros de extensão contando a história do poema “Nau Catrineta”.

A partir desse cômodo, duas largas escadarias de mármore levavam o público para o centro da plateia da sala de espetáculos. Ela, por sua vez, era totalmente revestida em material acústico. Suas laterais eram decoradas com painéis que representavam cavalos estilizados galopando, autoria de Jean Bousquet.

Outro destaque desse espaço era a tecnologia usada na projeção dos filmes. Localizada dentro das vigas que sustentavam o primeiro pullman (região dos assentos mais caros), a cabine de projeção conseguia eliminar o facho de luz que ficava muito baixo e próximo a cabeça dos espectadores.

Para chegar nos pullmans, foram instaladas duas escadarias e dois elevadores. Na parte superior, outras salas de espera acomodavam o público vip. Decoradas com painéis de mosaico, que representavam a “congada” e o “frevo”, elas contavam com largos espelhos que davam profundidade e materiais em cerâmica.

Em fevereiro de 1973, o Paissandu se dividiu em duas salas. A Independência e a Império. Mas, ainda que tentasse se manter intacto, o negócio não resistiu a forte crise financeira de 90. Em dezembro de 1994, teve que ceder parte do seu espaço a um bingo. Devido a proibição do jogo, ele se viu obrigado a fechar suas portas.

Hoje, o espaço é divido por mendigos e pichações. É possível apenas ver um painel rasgado com a inscrição “bilheteria”. Ainda que esteja tombado,

 

Cine Marabá

Era praticamente normal ver um grupo de senhoras da classe média alta paulistana saindo de um bonde na Avenida São João, sempre às quartas-feiras a tarde. Todas com chapéus, caminhavam em direção a imponente entrada do Marabá para acompanhar a tradicional sessão das 16 horas. Inaugurado em 1945, o cinema construído pelo empresário Paulo Sá Pinto continha 1655 poltronas e trazia facilmente 50.000 pessoas as salas que ficavam lotadas até as segundas-feiras.

A fachada composta por colunas e ornamentos era chamativa por si só. No entanto, era ao entrar no saguão que tudo aumentava de proporção. Com as luminárias e o lustre de cristal, o luxo tomava conta do lugar. Este, recebia um toque final de glamour com o piso de mosaico parquet coberto por granito deteriorado e desenhos de espelhos.

O primeiro sinal de decadência veio nos anos 80, com a chegada dos videocassetes nos lares brasileiros. Sem resistir à crise, e sem condições de arcar com o valor do aluguel, o cinema fechava pela primeira vez suas portas. Nos seus últimos anos, ele enfrentava problemas de goteiras, poltronas rasgadas e bilheterias inexpressivas.

Em 1992 o prédio é tombado. E em 1996, Elda Bettin Coltro adquire o espaço e o transforma em mais uma de suas salas PlayArte. A mudança garantiu a sobrevivência do espaço por mais alguns anos. Mas, ainda que pequenas mudanças tenham sido feitas, o tombamento do local exigiu que ele passasse por uma séria restauração a fim de manter a sua qualidade.

Em 1998, Elda contrata o arquiteto Ruy Ohtake. Mas só para a aprovação do projeto inicial foram necessários três anos. Depois de uma série de negociações o local está pronto para a reforma. E em 16 de agosto de 2007, o cinema exibe a sua última sessão, Duro de Matar 4.0, com Bruce Willis. Apenas nove pessoas compareceram.

Oitenta profissionais se envolveram na reforma dirigida por Ruy e pelo restaurador Samuel Kruchin. Oito milhões de reais foram desembolsados para revitalizar a estrutura original e ao todo nove meses foram levados até que tudo se concluísse. Quatro técnicos do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) revezavam-se em vistorias quinzenais. Era essencial garantir que nenhum detalhe fugisse do projeto aprovado. Só para recuperar as colunas do hall foram preciso remover doze camadas de tinta, até chegar à cor bege original.

O resultado final revelou a proposta de seus donos. Unir o calor de duas épocas ao propor algo nostálgico e moderno ao mesmo tempo. A grande sala está dividida em cinco, três delas em formato stadium. Já as duas do segundo andar, ambas tiveram que preservar as entradas originais do mezanino.

Sua reinauguração foi feita no dia 30 de setembro de 2009, e o local está em atividade até hoje. 

 

Cine Marrocos

Ele já foi conhecido como o “melhor e mais luxuoso cinema da América do Sul”, e está localizado em um importante polo cultural da cidade: entre a Praça das Artes e a parte de trás do Theatro Municipal. O Cine Marrocos foi construído durante a década de 1940 e inaugurado em 1952, mais precisamente na comemoração do aniversário de 397 anos da capital paulista. Ainda hoje, quem passa pela sua fachada consegue observar detalhes originais que se mantém preservados até hoje.

A entrada mostra a excelência do lugar. Com colunas inspiradas na cultura árabe, ela convidava os visitantes a subirem a escadaria de mármore branco e acessarem o hall, onde estavam as bilheterias internas da casa. Em seguida, encontrava-se o átrio, ornamentado com uma fonte luminosa que concedia um ar de nobreza ao espaço de paredes vermelhas.

A partir desse espaço, saiam duas escadas para os balcões, enquanto a sua frente estaria o salão de espera, capaz de acolher um grande número de pessoas. A decoração assinada pelos designers Jacques Monet e Nizet era composta por imponentes espelhos e painéis em alto relevo, que contavam a história do cinema. Tanto o teto como o piso recebiam desenhos originais.

A sala de exibições comportava até duas mil pessoas sentadas. Os assentos eram estofados e apresentavam uma nova tecnologia para a época, as poltronas recuáveis. Toda a decoração do espaço foi inspirada na lenda árabe “Mil e uma Noites”, com desenhos nas paredes e colunas que se prolongavam pelo salão.

Ainda que tenha sido um empreendimento de sucesso por anos, o Marrocos fechou as portas em 1972. Tombado como patrimônio histórico, o lugar se manteve desativado durante anos. E, ainda que surgissem rumores sobre a sua utilização como espaço público, ele ficou ao léu até a sua ocupação em outubro de 2013 pelo MSTS (Movimento dos Sem Teto do Sacomã).

Em uma reportagem feita pela Vice em junho de 2014, Dalva Silva, uma das coordenadoras do movimento, afirmou que, até aquele momento, o local abrigava 475 famílias de várias nacionalidades, totalizando duas mil pessoas. Em outubro de 2016, estes foram obrigados a sair por uma reintegração de posse pela prefeitura de São Paulo.

 

Cine Jussara

Como em um desfile de trajes a rigor, homens e mulheres formavam uma longa fila que se direcionava até o número 288 da rua Dom José de Barros. A noite de estreia do Cine Jussara, no dia 14 de dezembro de 1951, chamou atenção de todos pela exibição do filme francês “Conflitos de Amor”. Esse se manteve em cartaz por seis meses consecutivos.

Muitos contam que sem traje social, era impossível entrar na grandiosa sala de 1122 metros quadrados, que acomodava ao todo 1400 pessoas. Com uma grandiosa estrutura, o local recebia ousadas produções francesas, que o levaram a se tornar a casa da Nouvelle Vague, movimento cultural do cinema francês presente nos anos 1960.

Todo o glamour não durou muito. A partir do dia 31 de julho de 1967, o cinema passou a se chamar Cine Bruni. E nove anos depois, em 1976, adotou o nome atual, Cine Dom José, com o qual se transformou em um dos mais famosos cinemas pornôs do centro de São Paulo.

Os filmes de Fellini foram substituídos por Juventude Indecente 2, filme pornográfico cujo o diretor é desconhecido. O nobre público não usa mais trajes refinados. E muito menos precisa encarar filas. De acordo com FL, dono do lugar há décadas, a maior parte das pessoas que visita o cinema são homens com mais de 60 anos de idade, jovens gays e casais de diferentes orientações sexuais.

Além do senhor de 84 anos, Dom José conta somente com outros três funcionários: dois guardas e uma atendente na bilheteria. Todo o resto, inclusive a limpeza, é terceirizado. Ainda que feita constantemente, ela ainda mantém o forte cheiro de cloro na sala, que agora conta com apenas 600 lugares.

“Senhores frequentadores, é proibido fazer programa neste local”, dizem os textos afixados nas paredes. Portas não existem nos banheiros. E qualquer tipo de ato sexual não é permitido. Afinal, para FL, esse é um cinema pornô e não um cinema de pegação.

A parte de cima do espaço é dedicado ao ensaio de trupes de teatro.

 

Cine Belas Artes

Ele é um dos cinemas mais antigos de São Paulo. Junto ao Cine Bijou da Praça Roosevelt, onde está instalado atualmente o Espaço Parlapatões, foi um dos templos para a indústria cinematográfica durante os anos 70, ao ir na contramão do circuito comercial.

O espaço ofereceu durante as décadas de 60, 70 e 80 um cardápio diversificado de produções europeias ao público da classe média, que procurava algo além dos filmes norte-americanos. Carregando a proposta de ser um espaço pensante, o Belas Artes foi um símbolo de resistência intelectual contra a censura presente nos anos de ditadura militar. Isso ao exibir os filmes mais radicais de Godard, Pasolini, Fassbinder, Herzog, Ruy Guerra e Glauber Rocha.

Diferente dos outros exemplos, o cinema nunca foi sinônimo de grandeza. Inaugurado em 1943 com o nome Cine Ritz, ele só ganhou fama em 1967, ao receber o nome pelo qual é conhecido até hoje, Belas Artes. A popular sessão da meia-noite, exibida as sextas-feiras, é um dos marcos dos tempos áureos do cinema. Quando terminava, mantinha o público madrugada a dentro debatendo a arte revolucionária da época nas calçadas da rua Consolação.

Ainda que sua história estivesse marcada pelo sucesso, em 1982 tudo muda. Vítima de um grande incêndio, o espaço perde as instalações de duas de suas salas. O inquérito do acidente nunca foi concluído, no entanto, graças a um maçarico e um cofre com sinais de arrombamento encontrados na gerência, a polícia mantém a hipótese de que este foi um ato criminoso.

No ano seguinte, o grupo Gaumont Belas Artes assume a gestão do espaço. Porém, com a chegada dos anos 90, ele entra em falência. O cinema só é reaberto em 2004, pela ação do cineasta André Sturm em parceria com a produtora O2 de Fernando Meirelles. O apoio foi por parte do banco HSBC.

Durante esse período, o cinema passou a integrar o circuito de arte da cidade, recebendo diferentes filmes internacionais em suas salas. Muitos destes, se mantiveram em cartaz por meses e até anos. Como o argentino “O Filho da Noiva”, de 2001, que ficou em cartaz por um ano e meio, e o “Medos Privados em Lugares Públicos”, que ficou mais de três anos.

Em 2010, outro ciclo se encerra. Com a decisão de não renovar o patrocínio, o banco HSBC sai da sociedade, levando o cinema a fechar suas portas em fevereiro de 2011 em meio a diversos protestos. Graças a um novo patrocínio, o cinema reabre após quase três anos fechado. Dessa vez, também é rebatizado, e recebe o nome Cine Caixa Belas Artes.

É importante lembrar que toda a estrutura da fachada e do hall de entrada é mantida como a original. Isso acontece devido ao tombamento de ambas as partes como patrimônio histórico desde o ano 2016. O motivo: manter a história do cinema mesmo se, por acaso, o prédio for comprado para outro uso.

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