O que aconteceu com os meninos da Candelária? - Frames
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O que aconteceu com os meninos da Candelária?

O que aconteceu com os meninos da Candelária?

Eles ocupavam as redondezas da Igreja de Nossa Senhora da Candelária, no centro do Rio de Janeiro, quase sempre para dormir, já que não conseguiam vagas em abrigos e creches. Na madrugada do dia 23 de julho de 1993, mais de 40 crianças e adolescentes se agrupavam no espaço improvisado. O que elas não esperavam é que naquela noite policiais armados abririam fogo contra eles ali.

Enquanto ocorriam os disparos, outra parte dos militares acordava algumas crianças que se encontravam nos arredores, as obrigando a entrar em carros para que fossem baleadas sob tortura. Wagner dos Santos foi uma das sequestradas. Após ser baleado quatro vezes, ele e outros dois rapazes foram abandonados próximo ao Museu de Arte Moderna, o MAM. Em uma entrevista ao G1, sua irmã, Patrícia de Oliveira da Silva, revela que ele só estava ali porque depois de trabalhar não tinha dinheiro para voltar para casa.

Ainda que um dos tiros tenha entrado pela nuca e saído pelo olho, Wagner sobreviveu. Graças aos seus depoimentos, um dos envolvidos foi identificado enquanto estava no hospital. Ali, ele conseguiu fazer um retrato falado, que levou os investigadores a outros três homens. Destes, três eram PMs da ativa e o quarto, Maurício da Conceição, já havia sido expulso da corporação.

Apesar do mandado de prisão, Maurício foi morto durante o próprio processo judicial. Os outros três, Nelson Oliveira dos Santos Cunha, Marcus Vinícius Emmanuel Borges e Marco Aurélio Dias de Alcântara, foram condenados, cada um, a penas que somam mais de 200 anos de prisão. Resultado: todos foram soltos antes do cumprirem, no mínimo, 20 anos de reclusão.

Quanto aos motivos de tudo, investigações comprovam que a chacina foi um ato de vingança a algo que os meninos fizeram na tarde anterior. Ao verem um companheiro ser detido por policiais militares, eles se rebelaram quebrando o vidro de uma viatura policial com uma pedra. Com o impacto, um dos militares foi levemente ferido. Já o mesmo não pode se dizer sobre o seu orgulho e o dos seus parceiros.

Quase um ano depois de sobreviver ao ataque, e de ajudar nas investigações do caso, Wagner sofreu um novo atentado. Quatro balas atingiram novamente o seu corpo, conseguindo sobreviver mais uma vez. Como saída, ele pediu ao então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, proteção. Isso em troca de prestar novos depoimentos sobre o caso. Foi assim que se mudou para a Suíça, onde continua até hoje.

Mesmo longe do local que mudou a sua vida, o menino sobrevivente da chacina da Candelária ainda se vê preso às lembranças do passado no Rio. Ainda que ao esvaziar as memórias por um instante, basta olhar para as sequelas de seu próprio corpo para lembrar o que um dia o ódio provocou. Cego de uma vista e surdo, Wagner carregará esses sinais para sempre.

Em uma cruz de madeira, erguida no jardim em frente à igreja, também encontram-se marcados os nomes das oito crianças e adolescentes mortos no episódio. Paulo Roberto de Oliveira, 11 anos; Anderson de Oliveira Pereira, 13 anos; Marcelo Cândido de Jesus, 14 anos; Valdevino Miguel de Almeida, 14 anos; “Gambazinho”, 17 anos; Leandro Santos da Conceição, 17 anos; Paulo José da Silva, 18 anos; e Marcos Antônio Alves da Silva, 19 anos, reúnem todos os anos, nessa mesma data, as pessoas que ecoam o grito de justiça que lhes foi tirado à força tão cedo.

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