O som da América Latina se estabeleceu no Brasil - Frames
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O som da América Latina se estabeleceu no Brasil

O som da América Latina se estabeleceu no Brasil

A música dos nossos vizinhos da América Latina nunca foi tão escutada no Brasil quanto antes. O espanhol vem sendo cantado com frequência em festas e karaokês, e com uma vasta diversidade de canções, diferentemente do que ocorria anos atrás, quando apenas uma ou outra melodia eram lembradas pelos brasileiros. Muitos atribuem ao sucesso mundial de “Despacito” para essa popularização massiva tanto no país quanto em outros continentes.

Antes da música cantada pelos porto-riquenhos Luis Fonsi e Daddy Yankee, poucas músicas do tipo haviam desembarcado no Brasil com sucesso estrondoso. “Gasolina”, lançada em 2004 pelo mesmo Daddy Yankee, considerado o artista que popularizou o gênero reggaeton, havia conseguido um status parecido, mas a onda acabou nela, não se espalhando para outros artistas.

Por conta dessa invasão hispano-americana, em São Paulo, as festas com a temática latina nunca foram tão procuradas. “Despacito foi fundamental para abrir as portas de todo o meio. Os DJ’s passaram a trabalhar muito mais. Em 2017 foi uma loucura, toquei em grandes eventos, viajei até o Rio de Janeiro, cidades do interior me mandaram propostas para saber quanto eu cobrava para discotecar˜, relata o DJ boliviano Pancho Valdez, um dos mais procurados na cena paulistana.

“Antes era uma cena muito fraca. Você só ouvia falar de pop latino e eram poucos artistas: Ricky Martin, Luis Miguel, Thalia, Shakira, entre outros. Nessa época, dava para contar nos dedos as casas de música latina em São Paulo. Fora daqui então era mais difícil ainda˜, diz Pancho Valdez.

A dj peruana Cecília Yzarra reforça isso: “Quando eu cheguei no Brasil em 2009 eu não estava envolvida com o ambiente da cultura e da música. Só em 2013, quando eu mudei para São Paulo que eu comecei a sair e percebi que não tinha a oferta de festas de música latina”.

Só que a peruana acredita que não foram apenas os sons que fizeram parte dessa popularização, mas sim a cultura latina-americana como um todo. “O Dia de los Muertos e Frida Kahlo também foram importantes. A música ajudou a popularizar o estilo mais pop latino, o que aumentou a procura de dj’s que toquem mais esse gênero”, argumenta.

Nascido em La Paz, na Bolívia, Pancho Valdez não pensou que ia ver o cenário da música latina virar algo tão popular no Brasil. “Cresceu muito desde os anos 90. Eu nunca imaginei que estaria da maneira atual, mas ainda falta muito para alcançar o ideal”, diz. A solução para o boliviano é que os países latino-americanos se unam mais culturalmente.

“Somos do mesmo continente. O Brasil faz fronteira com vários países que se comunicam entre si. A cultura brasileira é bem vista nos países da América Latina que falam espanhol. Só falta uma aproximação maior. Eu sonho um dia que as bandas, músicos e dj’s brasileiros possam fazer um intercâmbio com artistas de todo o continente. Talvez se ensinassem o espanhol na maioria das escolas já ajudaria muito a aproximar˜, argumenta.

Festa para imigrantes

 

A mais de dez anos na cena paulistana, produtor e idealizador dos projetos “Festa Viva La Raza”, dedicado ao hip hop latino e rap chicano, e a festa “Que Rico! Latin Beats”, voltado aos ritmos hispano-americanos tradicionais, Pancho Valdez lembra dos tempos em que os eventos do gênero eram voltadas em sua maioria para imigrantes dos países latino-americanos.

“Havia um DJ que marcou muito. Foi um cubano que abriu sua própria residência para fazer as festas. Ele tocava com fitas-cassete porque não existiam os CD’s e não tinha acesso aos vinis. Latinos de várias nacionalidades se juntavam lá, desde estrangeiros até os brasileiros. Não era um lugar apenas para dançar salsa e merengue, mas também para conhecer as pessoas”, afirma.

Atualmente, essas festas ainda existem. Principalmente na colônia boliviana em São Paulo (SP), uma das mais populosas do Brasil. O centro da metrópole e a Zona Norte são os polos desse tipo de evento. Pancho Valdez nos conta que essas celebrações têm suas peculiaridades em relação às baladas que vem ganhando o gosto do brasileiro.

“As festas bolivianas têm seus próprios sons e hits. Existe uma forte influência da cumbia villera, o ritmo que vem das periferias de Buenos Aires, na Argentina. Como a colônia da Bolívia em terras argentinas sempre foi numerosa, isso influenciou o pessoal que veio para cá˜, explica. A Reggaeton Latin Party e o El Che La Casa Latina são lugares famosos por receber esse público.

Ainda que tenham a presença de muitos bolivianos, essas festas acabaram abraçadas por  imigrantes de toda a América Latina. Até brasileiros já descobriram esses eventos “mais exclusivos”, que trazem grande público, principalmente por ter como atração shows de artistas de certa reputação no continente.

Cumbia exportação

Surgida no fim dos anos 90, a cumbia villera nasceu nas villas misérias, a denominação dada às favelas na Argentina. Com letras provocantes e de protesto, esse ritmo ganhou as periferias da Grande Buenos Aires. Com o tempo, essas músicas ultrapassaram as fronteiras e passaram a ser apreciados nos demais países da América Latina, principalmente Bolívia, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai.

A origem do gênero é a tradicional cumbia colombiana, um ritmo que mistura elementos indígenas, africanos e espanhóis. A versão villera incorporou vários novos elementos, além das letras provocativas, como os sintetizadores, a keytar e outros instrumentos eletrônicos. As bandas conquistaram uma multidão de fãs no continente, nomes como Damas Gratis, Yerba Brava, El Pepo e Meta Guacha são bastante conhecidos na chamada Hispano América.

A cumbia villera, muito presente nas festas de imigrantes em São Paulo, ainda não se popularizou no Brasil, mas existem artistas que esperam ajudar na familiarização neste gênero musical. O cantor, compositor e produtor musical argentino Marito já fez versões no ritmo de famosas músicas brasileiras. Ele utilizou canções do funkeiro paulista Kevinho para isso: “O Grave Bater” e “Olha a Explosão”. Respectivamente, ganharam os nomes em espanhol de “Joda en la playa” e “Guachiloca”.

“Eu conhecia mais o Kevinho porque ele é muito escutado em Buenos Aires e em toda a Argentina. Além disso, sou um admirador da música brasileira. Me chamou muito a atenção esse ritmo, o funk como um todo. Esse gênero é parecido com o início da cumbia villera, vi as letras, apesar de não entender muito o português. Quando eu li a canção achei muito boa e quis fazer uma versão no meu estilo˜, revela Marito.

Para Marito, a cumbia villera é uma versão argentina do funk, já que ambas surgiram na periferia de grandes cidades. “Esses ritmos têm muito em comum. A primeira vez que eu escutei foi como uma revolução para mim, já que eram letras diferentes do clássico que tocava por aqui. Eram letras pitorescas, de protesto e sobre as pessoas humildes das villas, por isso vejo uma semelhança com o funk e acredito que podemos abrir fronteiras”, afirma.

“Não vai pelo lado de apresentar o funk na Argentina, até porque o argentino sempre escutou música do Brasil. Talvez conquistar alguns fãs no Brasil com a cumbia villera utilizando o funk. Me animei a fazer essa mistura, já que é algo distinto, ninguém tinha feito até agora”, completa Marito, que é figurinha carimbada no programa Pasión de Sábado, um dos programas mais populares da TV do país vizinho.

Marito também gostaria de gravar uma música com um artista brasileiro para poder ultrapassar as fronteiras da Argentina. Além disso, ele tem um sonho de gravar outras canções brasileiras: “Algum clássico. Ficaria entre Menina Veneno ou Lambada. Fui criado escutando elas porque minha mãe gostava muito”. 

Não é só reggaeton e cumbia

A música latino-americana é muito diversa. Então a opção não fica dividida entre o reggaeton ou a cumbia. A dj peruana Cecília Yzarra, conhecida também como Selectora CecYza, traz ritmos mais clássicos e diferentes nas festas em que discoteca em São Paulo.

“Eu ia em algumas festas, mas eu não gostava muito, já que não era tão fã do reggaeton e do pop. Comecei a ir em eventos onde tocavam sons no vinil, e eu também queria ouvir ritmos latinos nesse tipo de rolê. Só que mesmo assim, tocavam uma ou outra salsa desconhecida. Aí eu vi a oportunidade de preencher este vazio e comecei a tocar”, conta.

Cecilia nos conta que o ritmo latino mais popular do momento, o reggaeton, tem letras muito ofensivas e machistas, então evita o gênero na sua discotecagem. “Não faço questão de tocar, no meu set tem um ou dois na verdade. Não é pelo tipo de música, mas pelo conteúdo das canções que eu acho ofensivo”, explica.

“São muitos gêneros, acho importante fazer a divulgação deles e não estereotipar a música latina. O estilo de música que eu toco é misturado: mambo, chachachá, cumbia e guaguancó. Tem rock dos anos 60, hip hop e muitos outros. O brasileiro está abrindo o ouvido para escutar coisas novas. Eu acho que essa  invasão da música hispana tem aguçado o interesse em conhecer mais gêneros musicais”, opina.

A dj peruana dá algumas dicas para quem quiser mudar a playlist e conhecer sons novos de outros ritmos latinos. “Tem umas bandas de músicos peruanos que são mais atuais que eu gosto muito. Tem La Inédita e La Nueva Invasión. Eles fazem uma mistura de cumbia, reggae e raggamuffin que eu acho interessante”, finaliza.

 

Para saber mais:

Dj Pancho Valdez: https://soundcloud.com/djpanchovaldez e https://www.facebook.com/djpanchovaldez/

Marito: https://www.youtube.com/user/MaritoTresOficial

Selectora CecYza: https://soundcloud.com/cecilia-yzarra

Reportagem: Bruno Núñez

 

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