“Tropicália ou Panis et Circencis” é um dos melhores álbuns da música brasileira? - Frames
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“Tropicália ou Panis et Circencis” é um dos melhores álbuns da música brasileira?

A exposição de Hélio Oiticica “Tropicália, manifestação ambiental”; o filme de Glauber Rocha “Terra em Transe” e a peça de Oswald de Andrade “O Rei da Vela” já marcavam a estruturação do movimento em diferentes segmentos. O que ainda não havia, era um registro capaz de definir o som que marcaria o Tropicalismo.

Sua história iniciou em julho de 1968, quando o país começou a se deparar com um álbum diferente nas prateleiras. Composto por 12 faixas, “Tropicália ou Panis et Circencis” era muito mais que um simples encontro de músicos. Era a contusão que muita gente esperava na Música Popular Brasileira.

Em maio de 1968, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Nara Leão, Gal Costa, Torquato Neto, Capinam, Guilherme Araújo, Os Mutantes, Júlio Medaglia e Tom Zé se uniram para gravar o que seria o efervescer do Tropicalismo. As letras das canções, o peso da voz e a interpretação de cada um traduzia o diálogo sobre um país periférico e esquecido. Tudo sob a tensão de uma época marcada pela censura de palavras: a ditadura militar (1964-1985).

Sua capa, uma fotografia feita na casa de Oliver Perroy, na época, fotógrafo da Editora Abril, já possuía uma mensagem por si só. Resultado de uma criação coletiva, com acabamento gráfico do artista plástico Rubens Gershman, ela, até hoje, pode ser lida como uma paródia as tradicionais fotografias de família. Aquelas encomendadas pela classe média brasileira.

Também considerada uma referência a capa do CD “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, lançado pelos Beatles (1967), ela gera outras percepções sobre alguns personagens. Se começarmos pelo maestro e arranjador Rogério Duprat, a simples substituição de um penico por uma xícara já resulta numa ideia nítida do Tropicalismo. Para o professor de literatura e membro do grupo de música e educação Cancioneiro Vinicius, o nonsense, a piada e a provação eram ideias significativas para o movimento, que em diversos momentos se baseou em sátiras para propagar ideias.

Tom Zé encontrou na mala que carregava a oportunidade de representar uma população por vezes marginalizada em cidades do sudeste brasileiro: os retirantes nordestinos. Gal Costa e Torquato Neto, lado a lado, representam o casal recatado e tradicionalista do interior. Ela com um penteado modesto e ele com uma típica boina. Já os Mutantes, com expressões sérias e instrumentos na mão, dão ar a audácia da nova musicalidade.

Entre as faixas, cada minuto torna-se precioso. Nos primeiros minutos, Gilberto Gil passeia entre arranjos sacros e violões para cantar “Miserere Nóbis” (Gilberto Gil e Capinam), uma canção que questiona a apatia sobre a situação política daquele momento. Duas faixas depois chega “Panis et Circencis” (Gilberto Gil e Caetano Veloso), interpretada pelos Os Mutantes. Como se estivesse sendo gravada em uma sala de jantar, com vozes à mesa e ruídos de talheres, ela sugere um questionamento sobre a normalidade da vida.

Dando continuidade, chega a voz de Nara Leão. Ao som do bolero rasgado de “Lindonéia” (Gilberto Gil e Caetano Veloso) encarna uma inocente personagem que idealiza um mundo pelas fotonovelas e pelo rádio. Tom Zé mostra a força urbana do país em “Parque Industrial” (Tom Zé), paródia que questiona o que produzimos e o que de fato consumimos. E, para encerrar o lado A do disco, vem a faixa “Geleia Geral” (Torquato Neto e Gilberto Gil). Com a voz de Gil, ela levanta protestos sobre a estagnação e o medo das mudanças.

No lado B, “Baby” (Caetano Veloso), canção na voz de Gal Costa, chega lançando a ideia do que de fato é amor. A regravação de “Três Caravelas” evoca o “descobrimento” da América, e “Enquanto Seu Lobo Não Vem” (Caetano Veloso) lança o peso do descobrimento de uma cidade composta por avenidas batizadas com nomes de políticos.

Gal retorna em “Mamãe Coragem” (Torquato Neto e Caetano Veloso) para cantar o fim da inocência jovem, relembrando o perigo que esse público enfrenta lá fora. “Bat Macumba” proclama uma poesia entre o asfalto e o terreiro. Por fim, “Hino ao Senhor do Bonfim” (Petion de Vilar e João Antônio Wanderley) mostra como mais uma vez o Brasil está entre deuses e bananas. Assim como no final de um grande espetáculo, a faixa traz gritos fantasmagóricos capazes de assombrar até os mais fiéis religiosos.

Após 50 anos, o trabalho ainda é atemporal. Em 2014, ele foi a primeira obra sonora a entrar na lista de “leitura obrigatória” da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). E apesar de ter tudo para ficar datado, não há músico brasileiro que não o cite como uma das principais referências musicais do país.

Escute o álbum completo aqui:

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