Maria Kassab é libanesa e vive em Beirute. Por conta da instabilidade política no país, viveu alguns anos em Montreal. Retornou para o Líbano em 1997, onde desenvolve seus trabalhos de colagem e ilustração. Já foi vencedora do Boghossian Prize em 2017.
Frames: O seu site diz que suas obras são profundamente enraizadas e inspiradas pelo clima político do Líbano. Pode falar sobre isso?
Maria: Sim, de fato, o Líbano sempre foi severamente despedaçado politicamente, por causa das guerras passadas e da instabilidade nos países árabes em torno dele. Quer nos agrade ou não, somos afetados a níveis pessoal, social, ambiental e cultural. E essa insegurança e incerteza particulares daqui são traduzidas no meu trabalho.
Entre os temas mais recorrentes na minha obra está a decapitação de corpos humanos, a perda, a memória da destruição, o caos. É uma ferida sempre em processo de cura. Então, colagem para mim é uma acumulação e coleta de de imagens que possam ser costuradas em outras imagens para tentar expressar esse dilema entre a cura e a desconstrução do próprio conteúdo. É também uma forma de resistência ao atual estado que o Líbano sofre.
Frames: Que outros elementos do Líbano você encontra no seu trabalho?
Maria: A arquitetura, o ruído, a sujeira, a natureza, explosões, nostalgia, densidade, o mar…
Série: Der Kopf In Den Sternen/Maria Kassab
Frames: As fotografias usadas nas colagens são sempre suas?
Maria: Algumas das colagens são minhas próprias fotografias, outras de álbuns familiares, ou recortes de revistas.
Frames: Que materiais você usa?
Maria: Uso muitos materiais. Tudo que eu posso adicionar a uma fotografia para modificá-la eu faço. Trabalho com colagem analógica e colagem digital. Uso materiais como fitas, plantas, tinta, gouache, diferentes tipos de papel e texturas, queimaduras etc.
Frames: Quais são as cores predominantes?
Maria: Cores da terra e preto ou branco
Frames: Você pode falar sobre a série Implosion?
Maria: É uma tentativa de visualizar memórias de infância, de perda e deslocamento.
Trata-se de pessoas, lugares e detalhes que já não existem na memória.
Então tentei apresentar esses detalhes para depois queimá-los. É um desafio que me impus. Trazer à tona essas memórias existentes.
Série: Implosion/Maria Kassab
Frames: My Body, a Wave ainda é um trabalho em construção. Por que?
Maria: Segue em construção porque o corpo está em andamento, está sempre em movimento. O corpo não é estático. Esse trabalho é um estudo pessoal sobre o corpo, a natureza, o espaço. A relação do corpo com o que está ao redor, a dilatação ou a diminuição do corpo para se tornar outra coisa, formas diferentes, sempre em movimento.
Série: My Body, a Wave/Maria Kassab
Frames: 1997 fala sobre o retorno a Beirute. Você pode contar como foi? E como isso impactou seu trabalho?
Maria: Eu morava em Montreal e voltei em 1997. O retorno foi muito difícil. O país tinha acabado de se curar novamente depois da guerra. Nada era estável, tudo parecia sombrio e cinza.
Até ir para a escola era difícil, porque eu vinha de um ambiente tranquilo de Montreal. Eu achava que era pior retornar, mas era muito jovem e não conseguia entender o que estava acontecendo.
Tudo que eu sabia é que era muito difícil estar em um sistema educacional reprimido e oprimido. Eu me achava incapaz de ser livre. Havia vários constrangimentos, agressividade e culpa. Da liberdade à opressão, surgiu um lugar difícil para se relacionar.
Mas Beirute mudou desde então, tornou-se um lugar onde qualquer coisa pode acontecer, com resultados positivos ou negativos, mas tudo em uma cidade inspiradora. Beirute passou a saber o que quer e aonde quer ir. A geração jovem está trabalhando arduamente, artisticamente e socialmente para torná-lo um lugar com o qual eles podem se relacionar.