A coroa tem cor – Frames

A coroa tem cor

Durante uma noite ao ano, milhares de televisores se conectam ao evento que há mais de 60 anos elege a mulher mais bela do mundo. No dia 25 de março, o Palácio das Convenções no Anhembi recebeu a fase estadual do concurso, onde diversas candidatas que competiram entre si pelo título da mulher mais bela de São Paulo. Porém como destacar uma única Miss entre tantas outras com personalidades e estilos diferentes? A resposta despontou na vitória de Karen Porfiro, que enalteceu, pelo segundo ano consecutivo, a beleza e a atitude da mulher negra brasileira.

Karen Porfiro. Filha de um pai branco e uma mãe negra, a jovem cresceu em uma cidade no interior de minas. Karen é fruto da miscigenação de duas raças, e hoje, por meio da sua pele e do seu cabelo, defende o orgulho em ser fruto da combinação. Seu olhar almeja ser a terceira mulher negra a receber o título de Miss Brasil. Sua voz, por sua vez, quer dizer ao mundo que a mulher, independente de sua origem, cor, língua ou classe, tem o dever se olhar no espelho e dizer: “eu posso ser o que eu quiser”.

Criada em uma cidade pequena, no interior de Minas, Karen confessa que sempre gostou do universo artístico. Desde pequena gosta dos detalhes, explica, encantada com a beleza simples do mundo ao redor. “Existe um vídeo meu em um aniversário que é muito engraçado, onde eu pego uma flor e simplesmente a fico observando, entendendo os seus detalhes”, diz, em exclusividade ao Frames. Sua curiosidade pelo mundo logo despertou o interesse pela arte, estimulando com os anos a busca pelo caminho que mudaria a sua vida.

Logo a menina que brincava de pique-esconde com os amigos trocou o barro do jardim de casa pelo glamour e elegância das passarelas. Com o tempo, holofotes e flashes enalteceram os olhos verdes que conquistariam o “sim” de jurados, mas que na época apenas atraíam críticas sobre o futuro da Miss. “Geralmente nós do interior achamos que arte não é trabalho, que muitas vezes tudo se limita à TV. Durante muito tempo me inclui nesse grupo, até o momento que pesquisei sobre e percebi que podia dedicar meus esforços a isso”, afirma a jovem.

Sempre acompanhada de sua mãe, Karen ingressou profissionalmente na área aos 18 anos. A mulher, responsável pelos penteados diários da filha, decidiu dedicar-se inteiramente para sua educação.  “Tenho muitas inspirações, mas se precisar nomear a principal será sempre a minha mãe. Ela sempre esteve muito presente na minha vida, deixou de trabalhar assim que nasci para cuidar tanto de mim quanto da minha irmã mais velha. Pode parecer clichê para muitos, mas ela é grande responsável por eu ser quem sou.”

Durante o discurso Karen se recorda de uma situação muito desconfortável em seu passado. “Minha mãe conta que quando nasci muitas pessoas vinham até ela me elogiar, mas ao mesmo tempo diziam ‘você cuida dela?’, ouvir isso hoje me faz perceber que na primeira vez em que fui vítima de racismo foi minha própria mãe que sofreu”.

Fazendo jus ao seu lado pisciano, a mineira deu asas às suas ambições e decidiu, em 2012, correr atrás do sonho de ser Miss. “Quando eu conheci a Miss da minha cidade eu achei ela deslumbrante. Ao ouvir suas histórias sobre concursos estaduais, viagens, encontros com pessoas renomadas da área, vi a vontade com que ela me contava tudo isso e quis pela primeira vez viver algo do tipo também.” Neste mesmo ano Karen foi eleita Miss Timóteo, cidade na qual morava. Após isso concorreu ao Miss Terra Minas Gerais, em Divinópolis, ficando entre as dez finalistas.

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Tendo como destaque seu sorriso aberto e cabelo hiper cacheado a musa venceu pela primeira vez o título de Miss Minas Gerais em 2014. Seu visual foi alvo de diversos comentários, e ao mesmo tempo inspiração para outros. Em sua visão, a musa acredita que neste momento, pela primeira vez, sentiu a oportunidade de exclamar sua voz, defendendo impetuosamente o empoderamento da mulher negra.  Durante anos ela sofreu com o aprisionamento de seus cachos, que eram constantemente alisados com ajuda de químicos. “Após esse momento eu ganhei voz para falar sobre isso, principalmente para as mulheres que muitas vezes não se aceitam e não têm coragem de expor isso. Eu me vejo como uma chance de representatividade para elas.”

Ao representar o estado no concurso Miss Brasil 2014, Karen não conseguiu se classificar entre o TOP 15. Para muitos esse poderia ser o fim, mas para a jovem esse era apenas o começo. No mesmo ano ela se mudou para São Paulo, se envolveu em movimentos artísticos, e mergulhou em causas sociais, onde criou forças para lutar novamente pelo título de Miss Brasil 2017. Em seus discursos, Karen defende o empoderamento da mulher negra. Para ela, um título como esse tem a chance de representar muito mais que a beleza de um estado ou país, mas tem o poder de enaltecer as diferenças culturais, raciais e étnicas que o mundo possui. “Eu acho maravilhoso as pessoas questionarem a importância da beleza. O que é a beleza? Eu fico muito feliz quando as pessoas me dizem que eu sou muito mais bonita pessoalmente, porque são nessas ocasiões em que elas conseguem me ver além de uma foto, elas vêm minha essência.”

No decorrer de suas edições o concurso já foi palco para diversas transformações. Mulheres como a Leila Lopes e Janelle Commissiong enalteceram a força da pele negra ao receberem sobre o foco de luz ao centro do palco a coroa de Miss Universo. Outro grande passo foi dado graças a atitude de Sierra Bearchell, que com elegância e simpatia driblou os estereótipos físicos do concurso e disputou a coroa mesmo acima do peso. Em diversas edições movimentos sociais questionam a relevância do concurso, ao alegarem que a sua definição de belo não vai de encontro a que cada país possui. Hoje Karen Porfiro compartilha com o Frames os ideais que a tornaram a mulher que é, e que a levaram a conquistar o título de Miss São Paulo 2017.

Confira entrevista completa, em vídeo:

 

por Diogo Perez.

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